"Você gosta de cerveja amanteigada?
De tão essencial, a necessidade de autoestima já virou clichê. No entanto, poucos sabem, concretamente, como fazer para desenvolvê-la.
Poucos filmes possuem uma mitologia tão rica quanto a de Harry Potter. Ainda não tive a oportunidade de conhecer o novo parque da Disney que leva o nome da saga, mas tenho uma curiosidade nada infantil em conhecer o lugar (ok, ok, confesso que minha criança interior também está ansiosa por visitá-lo!).
Mas deixando a criancice de lado, é fato que, devido ao seu universo rico, a marca "Harry Potter" pôde se estender para muito além da série de livros/ filmes. Aliás, fazer os cenários do filme deve ter sido o sonho de consumo de qualquer cinegrafista, graças à riqueza de detalhes e às possibilidades que tal universo propicia.
Sapos de chocolate, feijõezinhos de todos os sabores, cerveja amanteigada. Apesar de provavelmente ter assistido aos filmes e ter escutado esses nomes tão sugestivos, você poderia dizer se gosta de beber cerveja amanteigada, por exemplo? Certamente não.
E este é o ponto. É possível que os amantes de cerveja respondam sim à pergunta, visto idolatrarem qualquer tipo de cerveja por definição. No entanto, talvez ficassem nauseados se, ao experimentarem a hipotética bebida, descobrissem nela um leve sabor de cera de ouvido. A verdade é que você não pode dizer que gosta de cerveja amanteigada, pelo simples fato de nunca tê-la, efetivamente, provado, de forma que qualquer resposta a essa pergunta que não fosse negativa seria, no mínimo, completamente leviana.
Por mais que eu me esforce para ser uma profissional original, não posso fugir de certas questões que povoam minha prática clínica. Verificar a autoestima do paciente é uma delas. Há muitas formas de fazê-lo e, sinceramente (pelo menos na maioria dos casos), qualquer terapeuta iniciante seria capaz de, ao final de uma hora de conversa, identificar se uma pessoa possui uma boa autoestima ou não.
O OLHAR PARA SEUS PRÓPRIOS ASPECTOS
POSITIVOS, GOSTAR DE SI MESMAS
PARECE TÃO SURREAL QUANTO
OS FILMES DE HARRY POTTER
Porém, a percepção dos outros acerca dos nossos problemas costuma fazer muito pouco para que eles sejam resolvidos (e isso inclui a percepção de nossos terapeutas!). Aqui, o que vale é a premissa: não podemos resolver problemas que desconhecemos. Sendo assim, o segredo é criar condições para que o paciente veja a si mesmo a partir de uma nova perspectiva.
"Você gosta de si mesmo?" - pergunto quando julgo necessário, deixando o paciente perplexo pelo caráter prosaico e, até certo ponto, ingênuo de minha pergunta.
"Mas é claro!" - ele responde com convicção, crente de que sua resposta colocará fim ao assunto.
Insisto: "Por quê?" "Como assim por quê?" - o paciente retruca. "Porque a gente tem que se amar, ora essa!".
"Você gosta de si mesmo?" - pergunto quando julgo necessário, deixando o paciente perplexo pelo caráter prosaico e, até certo ponto, ingênuo de minha pergunta.
"Mas é claro!" - ele responde com convicção, crente de que sua resposta colocará fim ao assunto.
Insisto: "Por quê?" "Como assim por quê?" - o paciente retruca. "Porque a gente tem que se amar, ora essa!".
Nesse momento, percebo que, ao contrário do que acontece em publicidade, quando o assunto são as emoções, uma mentira repetida diversas vezes... continua sendo uma mentira!
E para provar minha tese, pergunto a essa pessoa se ela gosta de cerveja amanteigada.
Confusão formada, insisto na pergunta, fazendo-a, por fim, perceber que o absurdo da questão é justamente sua impossibilidade de ser respondida, uma vez que para tanto, seria necessário ter experimentado a tal bebida, ou seja, seria necessário conhecê-la.
Tal como nuvens que se dissipam no ar, a relação entre a cerveja amanteigada e autoestima começa a ficar um pouco mais clara na medida em que pergunto novamente acerca do por que desse paciente gostar de si mesmo: "Do que, exatamente, você gosta em si mesmo?" ou "Que características fazem que você goste de si mesmo?" Silêncio profundo... Bingo!
A pessoa que não é capaz de responder a essas perguntas não conhece a si mesma. E, não conhecendo a si mesma, como pode dizer que gosta de si? Para muitos, seu eu interior lhes é tão desconhecido quanto a cerveja amanteigada!
Outros ainda dão à tal bebida uma certa vantagem, na medida em que, no caso da cerveja, por não terem nenhuma referência a respeito, possuem chances iguais de gostar dela ou não, assim que fosse possível experimentá-la. Mas quando se trata de responderem se gostam de si mesmas, o fato de essas pessoas enxergarem em si apenas os próprios defeitos, confere a seu autojulgamento certo efeito de viés. Para as pessoas que nunca voltaram o olhar para seus próprios aspectos positivos, gostar de si mesmas parece tão surreal quanto os filmes de Harry Potter.
Triste é saber, no entanto, que muitos processos terapêuticos corroboram esse viés. Pautada num modelo médico curativo, a terapia passa a depender dos aspectos disfuncionais do paciente para existir e, sobretudo, se justificar. Com isso, está estabelecido o círculo vicioso que parte erroneamente do pressuposto de que uma vida feliz se constrói simplesmente com a ausência de sofrimento.
Mais do que do autoconhecimento, a autoestima depende de nossa consciência acerca do que temos de melhor a oferecer ao mundo. E na prática, esse conhecimento talvez seja adquirido a partir da resposta a uma simples pergunta: você gosta de cerveja amanteigada?"
Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.
graziano@psicologiapositiva.com.br
Texto de Lilian Graziano retirado do site da revista Psique:
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