segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Linha pedagógica é fator importante na hora de escolher a escola para seu filho!

Chegou a época de matrículas nas escolas particulares e com elas o dilema de muitos pais, que têm uma tarefa nem sempre fácil pela frente: escolher a escola dos filhos, ambiente em que estes passarão a maior parte do tempo. Além de observar fatores como infraestrutura, localização e preços, os pais devem estar atentos também às diferentes linhas pedagógicas adotadas em cada instituição, que podem interferir na relação ensino-aprendizado e, assim, na formação intelectual (há quem diga ainda emocional) da criança.
Para a especialista em educação infantil da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maria Vittoria Pardal, as visitas às instituições, portanto, são mais que recomendadas.
“A família precisa conhecer o projeto político-pedagógico da escola até mesmo para ver se há uma afinidade entre os preceitos e valores da instituição e os familiares”, avalia.
Segundo a psicóloga, é interessante que os pais possam verificar, no cotidiano da unidade, como a linha teórico-pedagógica é empregada, quais os tipos de atividades aplicadas em aula, enfim, como o conteúdo é direcionado. Mas, ela ressalta: a opinião da criança deve ser levada em conta neste momento, jamais ignorada.

“A criança deve ser ouvida nessa escolha. Não adianta o pai querer determinada escola por ela se adaptar melhor ao projeto de formação que ele tem para o filho, a criança também precisa gostar do ambiente. Afinal, ela é quem frequentará a escola. Feliz, a criança terá melhor rendimento, assimilará mais facilmente os conteúdos”, observa.
De acordo com o professor da Faculdade de Educação da UFF, Aroldo Magno de Oliveira, existem basicamente dois tipos de escolas, as tradicionais e as progressistas. A diferença estaria na concepção de sujeito, de indivíduo, que se tem nas unidades tradicionais. Para o especialista, cujo entendimento, cabe ressaltar, não é unânime entre os profissionais da área, a primeira linha abrangeria todas as propostas pedagógicas, com exceção da pedagogia baseada nas ideias do educador Paulo Freire, a única verdadeiramente progressista na sua visão.
“As escolas desta grande linha teórico-pedagógica vão de encontro à tradicional, por provocarem uma ruptura no modo como que se encara o aluno. Elas trazem a concepção do social, da construção do conhecimento coletivo através de processos interativos, por exemplo. Ou seja, enquanto as demais escolas (tradicionais) priorizam a individualidade do aluno, este se desenvolve por ele mesmo. Na escola freiriana, são abordados também problemas comuns, sociais e econômicos para construção do conhecimento coletivamente. O aluno aprende a superar complicações comuns em grupo”, explica. 
De acordo com Aroldo, esta seria a grande vantagem da linha freiriana em relação às demais. 
Na prática, porém, as teorias (tradicional ou progressista) nem sempre se manifestam puramente no dia a dia dos alunos. Existem muitas outras metodologias, ou seja, maneiras de se repassar o conteúdo, presentes nas unidades escolares. Assim, cada escola usa os preceitos de uma ou mais linhas pedagógicas para “moldar” suas aulas.

“Os projetos, por mais que direcionados, não são excludentes, procuram incorporar aspectos que consideram positivos de outras linhas até porque existe um currículo, de base tradicional, elaborado pelo MEC, a ser seguido. O método construtivista, por exemplo, em tese ignora a divisão por séries e turmas, mas, na prática, acaba adotando-a”, salienta.
Outros pedagogos, no entanto, preferem classificar as linhas teórico-pedagógicas de maneira diferente, com destaque para três correntes: tradicional, escolanovista e crítico-social dos conteúdos.
Nesta visão, a corrente escolanovista, fundamentada na Escola Nova, movimento que ganhou força no Brasil na década de 1930 com o educador Anísio Teixeira, surge, sim, em oposição à tradicional, cuja metodologia considera falha e inadequada. Pretende dar lugar a um ensino mais humano, centrado não na quantidade, mas na qualidade. E, ao contrário da tradicional, por não priorizar a exposição de conteúdos, segundo alguns profissionais da área, pode ser falha na hora do vestibular. Nesta corrente, estariam diversas teorias e métodos, como o construtivista ou piagetiano; montessoriano – baseado nos estudos da médica e educadora Maria Montessori; entre outros. Já na última tendência, a crítico-social dos conteúdos, estaria a concepção pedagógica de educadores como Paulo Freire.
Discussões teóricas à parte, fato é que as diferentes linhas pedagógicas podem fazer toda a diferença na educação do aluno. Saiba mais sobre as principais linhas encontradas em escolas de Niterói a seguir.
Pedagogia tradicional com aulas expositivas
A pedagogia tradicional é a mais aplicada atualmente. Segundo especialistas, tem como princípio fundamental a transmissão de conhecimento através de aulas expositivas, com ênfase na repetição de exercícios visando à memorização. A função primordial da escola, nesse modelo, é transmitir conhecimentos disciplinares para a formação geral do aluno, formação esta que o levará a inserir-se futuramente na sociedade, a optar por uma profissão valorizada, tornando-o apto a concorrer ao vestibular, por exemplo.
Nesta linha, o conhecimento é repassado como se o aluno fosse uma “tábula rasa” – expressão latina que significa “tábua raspada”, o mesmo que uma folha de papel em branco –, aspecto pela qual é criticada por muito educadores. Além disso, nas aulas tradicionais, afirmam pedagogos, os conhecimentos são concebidos como verdades não sujeitas a variações nem à dependência de contextos, diferentemente de pedagogias mais modernas, em que o estudante deve “construir o conhecimento” e não simplesmente absorvê-lo.
As provas são o principal método de avaliação para promoção escolar, pois medem a quantidade de conhecimento apreendida. Quem não alcança a pontuação mínima é reprovado.
O pedagogo Aroldo Magno ressalta que muitas características do ensino tradicional estão presentes no Brasil e no mundo, mesmo nas escolas com linhas de ensino mais modernas, já que a própria formação de professores ainda é essencialmente tradicional.
O Colégio La Salle Abel, em Icaraí, é um exemplo de escola com princípios tradicionais. O diretor da unidade, Irmão Arno Lunkes, enfatiza, no entanto, que, apesar da base tradicional, a instituição não parou no tempo. Para ele, é possível, sim, aliar tradição com inovação.
“O termo escola tradicional, hoje, gera um grande mal-entendido, pois muita gente confunde tradicional com retrógrado. Um equívoco. Ser tradicional significa que carregamos a tradição da experiência em conhecimento e processo educativo. E é essa experiência, calcada em um fundamento teórico e histórico, que nos permite incorporar novas tecnologias, inovar com a força histórica da tradição”, defende.
O diretor destaca ainda a importância da pedagogia lassalista “na formação emotiva, afetiva, moral e ética dos alunos”.
Foi pensando nisso que a nutricionista Andréia Luzia Moreira Vieira, de 43 anos, matriculou os filhos Gabriel, de 11 anos, e Guilherme, de sete anos, alunos do sexto e primeiro ano do Ensino Fundamental, respectivamente, na instituição.
“O mais velho teve uma experiência em uma escola com uma linha mais solta, mas o ensino de lá não me agradou muito. De início, não há tanta diferença, mas, à medida que ele foi crescendo e o currículo se estendendo, comecei a sentir falta de um direcionamento, por isso optei pela linha mais tradicional”, relata.
Para a mãe, o ensino mais tradicional não é sinônimo de “coisa rígida”. Ela reitera ainda a importância dos pais conhecerem os princípios e valores da instituição.
“É preciso ver a escola como um todo, afinal, ela é a extensão, o complemento, digo até que um segundo lar e, por isso, seus preceitos éticos e morais têm que ter a ver com os que a família preza. Não adianta se ter em casa um tipo de educação e na escola ser tudo solto, não ter regra. No Abel, as crianças têm recebido muito conteúdo e aprendido a ler e interpretar muito bem. Além disso, a escola agrega o ensinamento religioso e também aborda temas importantes da atualidade, como a preservação do meio ambiente. Sem falar nas atividades extraclasse, como teatro e música. E o mais importante, eles também estão gostando”, diz Andréia.
Freiriana
Nesta outra linha, os aspectos culturais, sociais e humanos do aluno são levados em conta. É baseada nas ideias do educador Paulo Freire, para quem o conhecimento faz sentido para o estudante quando o transforma em sujeito que pode transformar o mundo. Bom senso, humildade, tolerância, respeito, curiosidade são alguns dos princípios defendidos por esta corrente. A educação se torna uma ferramenta para “libertar” o aluno.
Para a diretora pedagógica do Colégio Paulo Freire, no Engenho do Mato, Cristina Morais, essa prática pedagógica propicia a construção de um pensamento mais crítico, voltado para as questões sociais e ambientais.
“Buscamos trabalhar o desenvolvimento emocional, social e cognitivo de cada aluno. Além do conteúdo do MEC, a partir do sexto ano temos o Fórum Contemporâneo, uma disciplina que procura trazer à discussão os problemas do mundo. Nela, os alunos discutem, debatem e trazem sugestões para esses problemas, sem interferência do professor. Isto propicia a liberdade de expressão e a formação do pensamento. Já com as crianças menores trabalhamos com a horta e o viveiro de animais, que vêm despertar o pensamento ecológico”, exemplifica.
A área de 5 mil metros quadrados da escola, no pé do Parque Estadual da Serra da Tiririca, somada à pedagogia, chamou a atenção da gerente de projetos Alessandra Ramos, de 36 anos, mãe de Beatriz, de dois anos, que está no maternal, e Tales, de sete anos, aluno do primeiro ano do Ensino Fundamental.
“Ela está sendo muito bem-preparada na alfabetização e vem apresentando um bom rendimento. Não conhecia muito bem essa linha, mas estou gostando”, conta, enquanto a pequena Beatriz se diverte na casa da árvore, que salta aos olhos na área central do espaço.
Linhas de estímulo à criatividade
A linha construtivista, como o próprio nome sugere, se baseia na construção do conhecimento, que vai além do limite físico da sala de aula. O professor deixa de ser o centro do processo, como na tradicional, dando lugar ao aluno; deixa de ser o transmissor dos conteúdos e passa a ser o facilitador da aprendizagem. Os conteúdos programáticos, por sua vez, passam a ser selecionados a partir do interesse do aluno, e as técnicas pedagógicas da exposição de conteúdos cedem lugar aos trabalhos em grupo, jogos de criatividade e atividades lúdicas. A avaliação deixa de valorizar os aspectos cognitivos, com ênfase na memorização, passando a valorizar os aspectos afetivos, com ênfase na autoavaliação.
Segundo o professor Aroldo Magno, esta linha enfoca a construção do conhecimento levando em conta a formulação de hipóteses e a resolução de problemas. Tais hipóteses são tidas como legítimas no processo de aprendizagem de acordo com as fases de desenvolvimento do aluno (descritas na psicologia de Jean Piaget). Por exemplo, para uma criança em fase de alfabetização, escrever leite com “i” no final é uma hipótese legítima, afinal o “e” neste caso tem som de “i”. Cabe ao professor fazer o diagnóstico do “erro” e levar o tema à discussão.
Para a coordenadora pedagógica do Ensino Infantil da escola Catavento, no Sapê, que segue o currículo High Scope, de base construtivista, Daniela Santos, o objetivo é que o aluno adquira autonomia.
“A rotina prevê ainda alguns momentos específicos para a criança experimentar o que o adulto vivencia na vida dele. Um desses momentos é o de ‘planejar, fazer, rever’, quando a criança escolhe em que área quer trabalhar. As salas são divididas por áreas: área da casa, área de blocos, área de artes, etc. O ‘fazer’ tem a mediação do professor, o ‘rever’, que é como o plano foi feito, estimula a organização de pensamento, a memória. Isto permite ao aluno expressar suas preferências e ao professor, identificá-las e, assim, estimular, incentivar outras, respeitando suas escolhas, é claro”, acrescenta. 
Já a coordenadora do Ensino Fundamental, Clarice Pessoa, destaca a importância do método na formação global do aluno.

“Ela não só prepara para o vestibular como para a vida. O aluno é estimulado a levar suas questões para a assembleia de classe e, assim, exercer sua cidadania, viver a democracia”, ressalta. 
A artista plástica Sandra Tavares, de 40 anos, mãe de Lara, de 10 anos, defende a pedagogia.

“Ela estimula outras áreas de conhecimento, como artes e ecologia. O olhar individualizado sobre o aluno, que tem voz e vez, liberdade de expressão, é importante para ele desenvolver a capacidade de argumentação, o que não quer dizer que não haja um direcionamento. O conteúdo não é solto, mas a criança pode se expressar”, opina.
Montessoriana
É a metodologia criada pela médica e educadora italiana Maria Montessori. Parte do princípio da experiência concreta e da observação e para isso dispõe de um material especial de apoio (adquirido através de catálogos de empresas especializadas) em que a própria criança observa se está fazendo as conexões corretas. Tais equipamentos originaram vários brinquedos pedagógicos.
De acordo com o pedagogo Aroldo Magno, a linha montessoriana tem base construtivista, na qual o aluno é o centro de tudo. A diferença básica é que, no caso da montessoriana, “o professor induz o aluno a chegar a determinado ponto”.
As salas de aula das escolas desta linha chamam a atenção pelas estantes, onde são acomodados os materiais coloridos. Acomodam, geralmente, 15 crianças com até três faixas etárias diferentes e de dois a quatro orientadores de classe (como são chamados os professores montessorianos, com formação diferenciada). Cada sala tem ainda uma finalidade, como o ensino da matemática e da linguagem. Há ainda a de conhecimento de mundo, que visa a desenvolver a independência e a autonomia da criança.
A diretora pedagógica do colégio Prisma Montessori em Itaipu, Ubaldina Moura Coutinho, enfatiza o estímulo à criatividade e cita exemplos notórios de alunos de escolas montessorianas aos quais esta qualidade não faltou: os criadores do Google e da Wikipédia.
“Tem-se a ilusão de que a escola montessoriana é muito solta porque, em determinados momentos, é o aluno quem escolhe o material com que deseja trabalhar. Mas não é por aí, pelo contrário, temos uma disciplina rígida. E os alunos levam a sério”, completa.
Em relação à corrente que prega que escolas não tradicionais preparam menos para o vestibular, ela conta que costuma ter o feedback de alunos egressos e contesta a versão. Um exemplo é a filha do professor de educação física e mestre de capoeira José Edélsio Soares Filho, de 39 anos, a estudante Amanda Farias Soares, de 17 anos.
“Ela sempre estudou em escola montessoriana e passou para várias universidades públicas, além da Marinha e Aeronáutica. E atribui o êxito ao ensino montessoriano, não só pelo conteúdo, mas pela calma e autoconfiança que o método proporciona e que foi determinante também na escolha da carreira, cadete da aeronáutica. Esse método é bem interessante porque também estimula o respeito às diferenças com naturalidade e a integração social”, relata o pai.

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