segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mãe e a fronteira do céu

A relação de uma mãe com seu filho é de uma singularidade que nenhum outro vínculo afetivo é capaz de compreender


Escrevi recentemente uma coluna, neste espaço, sobre o pai. Mais que depressa, minha editora, em nome das não concernidas, escreveu- me: "e a idealização da mãe, aquela que deve 'padecer no paraíso?'. Será que esta mãe é humana? É mortal? Enfim, lá no fundinho, ela é real mesmo?".

Vamos lá, falemos da mãe, começando por essa frase tão antiga, repetida e de múltiplos sentidos: "ser mãe é padecer no paraíso". Provavelmente trata-se de uma tradução leiga do Gênesis, do "parirás com dor", maldição lançada por Deus contra a mulher desobediente. A dor surge exatamente no momento da maior alegria que um ser humano pode ter: dar à luz um novo ser. A editora pergunta se não é exagerado associar a maternidade ao paraíso, mesmo que dolorido. Pensa-se que não. Isso fala de uma especificidade do amor materno, diferente do paterno.

Estudemos uma cena mais que habitual. Pai, mãe e filho-bebê estão na sala. O bebê fala, por assim dizer, faz um barulho como "ióóó". O pai fica indiferente, a mãe exclama: "Ah, coitadinho, está com fome". Passado certo tempo, lá vem o bebê de novo, agora com: "heiuc, heiuc". Pai, impassível. Mãe: "Você viu como ele está contente com o novo chocalho?". Daí, em seguida, para dizer que "spé, spé" é dor de ouvido, fica fácil. O pai disfarça seu espanto descrente desse diálogo, a ele, esquisitíssimo. Mas imagine só se não houvesse alguém suficientemente "imaginativo", sendo delicado, para interpretar esses primeiros balbucios incompreensíveis a um pai?


A RELAÇÃO DA MÃE COM UM FILHO É IMEDIATA. O PAI FICA LOUCO PARA QUE O FILHO COMECE A FALAR E ANDAR PARA QUE ELE O SINTA COMO SEU FILHO


A relação de uma mãe com um filho é imediata, ela não depende das formas estabelecidas da cultura. O pai fica louco para que o filho comece a falar e andar para que ele o sinta como seu filho. Batismo para pai é o primeiro jogo de futebol juntos. Ah! Aí a alegria independe do resultado do jogo! Mãe, não. Vejamos outro exemplo, mais triste, mas não menos evidente. O que vemos nas filas das portas dos presídios em dias de visitas? Mães ou pais? Mães, a resposta é fácil, dada a grande discrepância. Como amor de mãe não tem o intermediário da cultura - é direto -, filho nunca é criminoso, é sempre, e antes de tudo, filho. Chico Buarque cantou esse aspecto em Meu guri, a história daquela mãe que diante de todas as evidências da bandidagem do guri, continuava a vê-lo como um anjo de altar. Assim são as mães.

Se paraíso é a contemplação direta do divino, ser mãe tem um quê de paradisíaco, pois assim ela vê seu filho. E a dor? Ora, a dor, paradoxalmente, pode até ser buscada como marca de ligação com o filho, do gênero da equação emocional: "Se sofro dessa maneira, é só por você, porque você é meu filho". É o uso do sofrimento como assinatura do cartório do paraíso.

Hoje, de fato, está um pouco em desuso choramingos maternais. A liberação sexual e econômica da mulher é um pouco incompatível com essa ideia de mater dolorosa; fala-se, então, em uma mãe real. Mas o que será isso: "mãe real"? Aquela que cuida dos filhos, que trabalha, se arruma e namora? Sim, conhecemos essa mãe, é a mãe objetiva, que vive reclamando de seus vários empregos, fora de casa e em casa, que requer direitos sobre sua alegada dupla ou tripla jornada de trabalho, que está exausta, arre! Pobre moça! Será que não fica mais fácil dizer sobre sua satisfação de poder ter vários papéis e ainda manter só para si o prazer enorme de poder traduzir um grunhido de uma criança em: "te amo, mamãe", ao qual pai nenhum pode contestar?

Existem mães que, preocupadas com suas imperfeições, exageram na busca de manuais da mãe exemplar. Não é um bom caminho, acabam dando material para as caricaturas tão conhecidas do Ziraldo. Não existe mãe perfeita nem ideal, há, sim, para cada um, alguém que cumpre essa função com suas qualidades e defeitos. E é sempre melhor que o fi- lho enfrente o defeito de uma mãe que o de um suposto técnico em maternidade. Falava-se antigamente que a mãe perfeita seria a mãe asmática, pois ao responder imediatamente a cada pedido do filho, antes mesmo que ele se pronunciasse, acabava por sufocá-lo.

Enfim, mãe, sofrer no paraíso é demasiadamente humano e mortal. É o passaporte de dupla nacionalidade: o de fora e o de dentro da cultura; é a fronteira do céu.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A dança da cooperação


Pessoas tendem a ser mais empáticas quando executam ações simultâneas
©Shutterstock
Ações sincronizadas facilitam a concordância sobre os mais diversos temas e a interação social. No entanto, não é fácil ter sintonia fina de pensamentos e movimentos sem a oportunidade de “ensaiar a coreografia”, como fazem os dançarinos. Um dos primeiros pesquisadores a reconhecer isso, há mais de 80 anos, foi o psicólogo social Floyd Henry Allport, professor da Universidade Harvard.

Apesar de permear nosso cotidiano, a sincronia implicada na cooperação não tem nada de trivial. Tal associação é construída apenas durante a interação propriamente dita – é por isso que ninguém aprende a dançar consultando livros ou sites na internet. Pioneiros nessa área, os psicólogos cognitivos Simon Garrod, da Universidade de Glasgow, e Martin Pickering, da Universidade de Edimburgo, investigaram o papel da fala como instrumento de coordenação. Eles observaram que, enquanto executam ações sincronizadas, as pessoas tendem a concordar rápida e involuntariamente sobre conceitos comuns. Exemplo: dois indivíduos, enquanto realizam uma ação conjunta, discutem a cor de uma gravata. Quando um deles diz que a peça é verde, o outro não demora muito para concordar, mesmo que a gravata seja de fato azul. Esse acordo tácito simplifica muito o entendimento.

Os experimentos dos pesquisadores escoceses mostraram também que a estrutura da frase e até mesmo a entonação da fala passam por ligeiras alterações para que a conversação flua sem obstáculos. Muitas vezes, porém, a cooperação exige algum esforço para garantir que as pessoas não reajam na hora errada, ou seja, na vez do outro. É preciso certo grau de sensibilidade para perceber o outro e alternar a fala e a escuta durante uma conversa, ao tocar as teclas no momento exato num duo ao piano ou durante uma dança, por exemplo.

Fonte: 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O bom do faz de conta

O escritor Ilan Brenman fala sobre o papel dos contos de fadas na infância

Fernanda Carpegiani

 Shutterstock
























A criança não vive sem o conto de fadas. Por meio da magia das histórias, ela cresce e aprende a compreender o mundo com mais propriedade. É o que disse Ilan Brenman, educador, psicólogo e autor de livros infantis em entrevista à CRESCER. Confira:
CRESCER: Qual é a importância do conto de fadas na infância?



Ilan Brenman: É tão importante para a criança se alimentar do leito materno quanto se alimentar dessas histórias. Uma é a nutrição fisiológica, e a outra é a nutrição da alma, da mente e do espírito. Ela tem que passar por essa experiência. O conto de fadas é algo tão forte que está presente em qualquer lugar do mundo, entre crianças pobres e ricas. É como andar de bicicleta, aprender a nadar ou ter contato com música.


C.: Quando a criança entra em contato com histórias e seres fantásticos, ela também está se desenvolvendo como ser humano?



I.B.: Os contos de fadas contêm rituais de passagem e de amadurecimento. Sempre falam sobre jornadas, desafios que fazem os heróis crescerem, conflitos que aparecem representados pelos personagens maus. E isso está diretamente ligado à vida da criança. O maior sentido da vida dela é crescer, amadurecer, e para isso ela precisa ir para o mundo. Existe a jornada, os obstáculos, as bruxas, os monstros representados por dezenas de pessoas e as fadas, também representadas por outras pessoas. É isso que dá a energia e o fôlego para a criança poder vislumbrar o futuro. O conto é um grande espelho do que a criança vive no seu mundo interno e quando ela se depara com isso acontece um encontro amoroso. Como em qualquer encontro amoroso, existe medo, receio, excitação, tristeza e muito prazer. Esses componentes fornecem uma base fenomenal e elementar para ela entrar tanto no mundo da comunidade humana quanto no mundo do conhecimento, porque flexibiliza a mente e a deixa mais aberta para receber e compreender as coisas que são aprendidas.


C.: Como esse contato com a fantasia pode servir para a vida real?

I.B.: Sem imaginação não existe aprendizagem. Os grandes gênios da humanidade, que construíram coisas extraordinárias, foram sempre pessoas criativas. A capacidade de abstrair tem a ver com imaginação, porque é a imaginação que prepara o terreno para o racional. O conto de fada é uma ferramenta poderosa de elaboração e compreensão do mundo, pois abre canais para a criança pensar sobre as coisas da vida real. E a gente faz isso também, o conto de fadas não existe só no mundo infantil. Se você assiste ao filme Uma Linda Mulher, vê que é a história da Cinderella. Guerra nas Estrelas também é um grande conto de fadas. Então o adulto também faz isso. A roupagem é outra, mas a base é a mesma. As pessoas procuram isso para tentar compreender melhor a realidade.

Fonte: revistacrescer.globo.com

3 brincadeiras para quando você está cansado (a)

Não deixe que seu cansaço impeça que você se divirta com seu filho. Veja algumas dicas!

Edição Daniela Tófoli. Reportagem Fernanda Carpegiani e Thais Lazzeri
  Divulgação
Mãe, vamos brincar? Ouvir essa frase ao chegar em casa, logo após aquele dia superestressante de trabalho, deixa qualquer mãe em uma saia-justa. Seu cansaço não é motivo para deixar de se divertir com seu filho. Veja algumas brincadeiras para fazer sem gastar muita energia. As crianças não vão nem perceber que você está cansada e vão adorar.
Ver fotos de família: Tire aquele álbum do armário e relembre com seu filho alguns momentos. Você pode mostrar fotos de quando era pequeno, do seu casamento, da gravidez... E propor brincadeira do tipo: encontre uma foto da mamãe de cabelo curto, de cabelo comprido etc.
É proibido rir ou piscar: Fiquem olhando bem nos olhos um do outro. Quem sorrir ou piscar os olhos primeiro, perde.
Faça uma dobradura: Pode ser um barquinho, um chapéu, o que você souber!
Fonte: Keiko Sakamoto, psicóloga, especialista em brincadeiras (SP)

Fonte: revistacrescer.globo.com