quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Volte à infância aprendendo movimentos novos
Lembra de quando você queria pegar aquele lindo móbile girando sobre a sua cabeça e sua mão não obedecia? Claro que não, você era bebê. Adultos já dominam todos os movimentos voluntários que podem fazer... será?
Se você gostaria de ter uma idéia da agonia que dava tentar controlar sua mão e não conseguir, e entender por que, assim que conseguia, você logo repetia o mesmo movimento trinta vezes seguidas, aqui vão algumas sugestões de novos movimentos que você pode aprender a controlar, mas talvez nunca tenha tentado.
1 – Vá para a frente do espelho e pisque um olho só (caso você não tenha aprendido a fazer isso quando era criança).
2 – Muito fácil? Continue na frente do espelho e tente erguer uma sobrancelha sem mexer a outra.
3 - Tire o sapato e tente mexer o dedinho do pé sem mexer os outros dedos (essa é mais fácil).
4 - Volte para a frente do espelho e tente arreganhar as narinas para os lados, como fazem animais enraivecidos - mas sem franzir o nariz!
E aí? Teve aquela surpresa boa quando conseguiu pela primeira vez? Deu aquela sensação de tentar "lembrar como eu fiz daquela vez" e ficar contente quando funcionou de novo? Repetiu várias vezes só para ter o gostinho de conseguir de novo?
Parabéns! Você agora sabe na própria pele como funciona o aprendizado motor:
- Com cada tentativa você cria e testa um “esquema motor” no cérebro (como se fosse uma nova escalação de um time de futebol), que comanda uma determinada combinação de músculos. No começo não funciona, e você acaba mexendo o que não queria.
- Quando finalmente dá certo, seu cérebro compara a informação chegando pelos sentidos com uma "cópia interna" das sensações esperadas - por exemplo, o mindinho se afastando do pé, ou a visão de uma única sobrancelha se levantando - e detecta que a ordem “funcionou”. Quer dizer: o que você se vê fazer combina com o planejado. (Aqui você nota, aliás, a importância do retorno sensorial, ou feedback: para aprender é preciso saber se cada tentativa é bem-sucedida ou não).
- O cérebro fica contente, literalmente, e ativa o sistema de recompensa, produzindo substâncias como a dopamina que vão ajudá-lo a fixar aquele esquema motor que funcionou. Para isso serve a repetição: cada vez que você repete o movimento, você reativa o novo esquema motor, que vai se fortalecendo. O resultado é que cada vez fica mais fácil conseguir acionar o comando do novo movimento – e cada vez seu cérebro vai ficando mais contente, num círculo vicioso.
Curiosamente, seu cérebro não "criou" do nada neurônios que conseguiam comandar esses movimentos, mas aprendeu a reconhecer quais neurônios, ativados em conjunto e na hora certa, levam ao movimento esperado - e então passou a conseguir ativá-los sob demanda.
Por isso as crianças gostam tanto de repetir brincadeiras novas: o cérebro gosta de aprender. Até aprender as coisas mais inúteis, como erguer uma sobrancelha só. Aposto que você ficou se rindo sozinho na frente do espelho, não foi? Que criança...
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Faça o teste e se surpreenda!

Agora, feche os olhos por alguns instantes, abra-os e tente enxergar a bailarina girando no sentido oposto. Consegue? Se não conseguir, vá dar uma volta, leia outras coisas, depois volte aqui no site e veja a bailarina de novo. Constatar que ela pode subitamente girar para o lado oposto é uma surpresa e tanto!
A surpresa, claro, é oferecida pelo seu cérebro: esta imagem é uma série de 34 quadros que não mudam de ordem (eu chequei, mas, se você quiser se convencer, bastar salvar esta imagem e abri-la em um editor que a mostre quadro-a-quadro), repetidos em loop.
O cérebro enxerga movimento onde não há a partir da interpolação entre imagens sucessivas. Assim funcionam o cinema, os desenhos animados e aqueles filminhos que aprendemos a desenhar quando crianças na margem dos cadernos. E assim as 34 imagens da dançarina são interpretadas como cenas sucessivas de uma moça que gira sobre uma perna só.

Mas qual perna? Aqui está o truque: as imagens no filminho acima são ambíguas. Metade delas tanto pode representar a bailarina vista de frente quanto de costas; na outra metade das imagens, onde ela aparece de lado, a perna levantada pode ser tanto a esquerda quanto a direita (tente se convencer disso com a imagem estática ao lado).
O cérebro, no entanto, não se entende com ambiguidades, e tenta sempre encaixar suas representações do mundo em uma explicação única, coerente: se há movimento, ou bem a bailarina gira para a direita, ou para a esquerda. Em momentos diferentes, você pode enxergar ora a um movimento no sentido horário, ora no anti-horário - mas, a cada momento, o movimento só pode ser um.
O que nos faz enxergar a Bailarina Ambígua girando, digamos, para a esquerda, e não para a direita? Acaso, talvez, ou algum processo já em andamento no cérebro naquele instante que torna a interpretação tendenciosa para um lado ou outro.
Mas a informação, e com ela nossas expectativas, faz uma diferença. Por exemplo, quando o cérebro percebe a Bailarina Ambígua girando para a direita, no sentido horário, ele percebe a perna direita levantada; quando percebe a Bailarina girandopara a esquerda, no sentido anti-horário, ele enxerga a perna esquerda levantada. Você pode usar esse conhecimento para tentar mudar suas expectativas e convencer seu cérebro (ou seja, convencer a si mesmo!) a interpretar a mesma bailarina de duas maneiras diferentes.
Esta imagem aparece em uma matéria da Australian Associated Press como parte de um suposto "teste de lateralidade cerebral". Segundo eles, quem vê a bailarina girar no sentido horário "usa mais o lado direito do cérebro"; quem vê a bailarina girar no sentido anti-horário "usa mais o lado esquerdo do cérebro".
A parte da lateralidade é, até onde eu sei, besteira - como a maior parte das declarações da pseudo-psicologia popular que banaliza (incorretamente) a lateralização cerebral (que existe!) como sendo o lado direito do cérebro emocional e o lado esquerdo, racional. Mas isso é outra estória...
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