quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Muito boa reflexão trazida por um pai divorciado, filho de pais também divorciados. Será que os filhos de pais separados se divertem mais?



Na casa do pai
Por Jarbas Agnelli
22.08.2013
Estou chutando, generalizando e certamente dizendo besteira. Mas me parece que filhos de pais separados se divertem mais. Para corroborar com minha absurda tese, tenho uma pesquisa de campo profunda e abrangente feita durante 50 anos: eu. Meus pais se separaram quando eu era bem pequeno. A partir de então os fins de semana com meu pai foram sempre festa. Tudo bem que ele era um criativo publicitário empenhado em nos transformar em publicitários igualmente criativos (e talvez em compensar o tempo ausente). Pintura, desenho, gravações, teatrinho, filmagens e o que viesse na cabeça. Desenhávamos nas paredes do apartamento, fazíamos novelas de rádio gravadas em fitas cassetes (para serem ouvidas por nós mesmos) e raramente parávamos diante da TV. 
Como posso eu dizer que tudo seria diferente se ele tivesse morado em casa? Por que ele foi morar. Anos depois os dois resolveram se juntar de novo, na minha adolescência. E apesar da alegria de tê-lo em casa todos os dias, a festa nunca mais foi a mesma. 
Agora, sou um pai separado e me vejo nesta certa angústia (boa) de fazer do tempo junto com a Nina o melhor possível. É claro que ela tem só 4 anos e não há pressa alguma. Temos a vida inteira pela frente. Mas recebi essa herança de meu pai. A herança da risada, da bagunça, do chão, de fazer dos minutos horas, das horas memórias, da sala um atelier, da vida um teatro, do filho um pupilo, um amigo, um parceiro. 
Não sei se existe tal diferença. Era eu outro pai quando morávamos todos sob o mesmo teto? Provavelmente não. Acho que essa diferença eu inventei para poder reviver meus saudosos dias de filho de pais separados e, de alguma maneira, voltar a ser criança ao lado da Nina. A mesma criança que meu pai foi ao meu lado.
Fonte: Revista Pais e Filhos Edição de agosto de 2014.

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